Módulos Cantareira
Mairiporã SP | 2024
Esta obra expõe um processo de projeto que parte de complexas premissas programáticas e geográficas.
O programa proposto pelo casal refletia o desejo por espaços e usos diversos, consequência da ampla atuação de ambos. Ela é graduada em arquitetura, migrou para moda, docência, empresária, atua também com comunicação e mídias digitais. Ele é músico, escritor, ativista, desenhista, empresário e faz uns queijos também.
Contava com um estúdio de música, um ateliê, uma capela e uma edificação de apoio com uma suíte, cozinha, copa e uma pequena adega/depósito de queijos.
Entendemos que este programa deveria, além de atender bem às demandas imediatas, ter também a capacidade de ser flexível para futuros e diferentes usos.
O lote conta com um acentuado aclive, tomado pela vegetação, principalmente árvores, e neste caso, a premissa é de que não fosse necessária a remoção de nenhuma delas. Uma feliz constatação foi de que a orientação norte era justamente para a frente do terreno, o que permite que a iluminação natural ocorra durante praticamente o dia todo, sempre filtrada pelas folhas das copas das árvores.
O diálogo entre território e programa traduziu-se na escolha pela dispersão dos usos pelo lote. O projeto tratou de organizar o posicionamento das edificações, a relação e o fluxo entre elas.
Desta forma, promoveu-se a permeabilidade entre o ambiente construído e a natureza presente neste pedaço de mata atlântica nativa: a Serra da Cantareira. Considerada uma das maiores florestas urbanas do mundo e um vital refúgio de flora e fauna, a região é também responsável pela segurança hídrica dos mananciais que abastecem de água milhões pessoas da macrometrópole.
A escolha do sistema construtivo passava pela pertinência e síntese material. O concreto aparente foi uma resposta consistente e contava com enorme simpatia dos clientes. O material carrega também uma rica experiência sensorial.
“[…] Mas a beleza superficial do cimento é impressionante, e o contato com ele revela a profundidade do trabalho que está subjacente. Evoca a experiência simultânea do toque delicado e a sensação centrípeta de entrar numa gruta.” [Furuyama, 2007].
O projeto trata a natureza não apenas como paisagem a ser contemplada, mas também cotidianamente experienciada. Implantados entre as árvores cada um dos volumes adquire uma identidade programática característica, e o percurso entre eles em um sistema que traz a percepção direta da topografia acentuada do terreno.
Há na filosofia espacial e sensorial japonesa uma manifestação física de coragem cotidiana que recusa anestesiar os sentidos, mantendo o habitante em contato direto com o tempo e os ciclos da Terra. O céu é o único e verdadeiro teto deste espaço compartilhado. As edificações não domesticam a natureza, elas exigem que seus frequentadores aceitem a crueza do mundo exterior como parte indissociável da experiência do habitar.
“[…] Eu acredito que a vida em harmonia com a natureza exige que aceitemos tanto seu lado severo quanto seu lado poético. Sentir as mudanças de temperatura e as intempéries nos faz perceber o que significa, de fato, estar vivo.” – Tadao Ando
Créditos
Arquitetura
Terra e Tuma Arquitetos Associados
Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma
Paisagismo
Gabriella Ornaghi e Bianca Vasone Arquitetura da Paisagem
Estrutura
HBStudio
Instalações
RCB
Construção
Taguá Engenharia
Fotografias
Pedro Kok